Desplendor
Havia nele um tédio reprimido, um esgar mal disfarçado pelas nuances do seu dia repetido e gasto
Não sentia prazer em acordar, como se algures pelo caminho, se tivesse esquecido de como abrir os olhos, e as manhãs fossem tentáculos vigorosos que o afundavam no colchão. Como se o peso do mundo fosse cobrí-lo, e a vida o deixasse imóvel.
"Só pode ter sido algures no caminho, que perdi a força nos dedos para me agarrar, nos braços para me erguer, nas pernas para continuar, no peito... para me entregar.
Pois se os dias se sucedem, infinitos, arrastados, contínuos, se a vida é isto... e eu batalho para me suceder, arrastado... Se eu sou isto..."
Observo-o em todo o seu "desplendor". Os seus olhos grandes e baços, colados nos cantos, a respiração ansiosa agitando-lhe o peito, a sua voz sumida presa na garganta e a inexpressiva descoordenação dos seus gestos. Observo-lhe a sensação de vazio, mas de dever, de estar a falhar antes mesmo de se mexer.
A vida é feita para os valentes, e para os serenos.

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