O cão que não era gente
Hoje, a minha história de se contar, aconteceu no
encontro de uma carrinha de caixa aberta, daquelas
antigas, anteriores a eu ter dedos de escrever.
E a tudo assisti, com o meu
sorriso flácido, disfarçando as lágrimas presas a que tinha direito.
Cruzei-me então com um cão
despenteado, daqueles que são do campo e da terra, que não sabem ser senão
cães, de língua e cauda felizes. Excepto neste dia em que o conheci, em que já
não era senão o cão com a sombra da partida a pintar-lhe de mate o brilho nos
olhos.
Ora era cão de corrente,
daqueles que levam o êxtase ao vento nas estradas nacionais, e que são rijos e
rufias, e cuidam da carrinha de caixa aberta do dono, mesmo à torreira do sol
do meio dia.
Este cão não era gente, não
era daqueles que vão ao doutor fazer as vacinas, nem ao banho tirar os nós. Não
se deitava aos pés da cama e tampouco punha as patas dentro de casa. O cão era
cão. E não havia de mal nisso.
O cão não me contou a sua
história, e apenas o toquei com as mãos de pena, estava já a alma do cão de saída
do corpo, banhado em sangue vermelho vivo, envolto pelo aroma do fim.
O cão esticava-se, não sei se
de dor, se de recusa em ir-se embora. O cão já não lá estava quando lhe
espreitei os olhos, após constatar que ainda respirava - os olhos baços e
distantes, o ofegar agonizante do cão, não estava para ficar e senti-me pequena.
Os cães que são cães também
são gente, quando partem. Afinal de contas, ao partir, o dono trémulo
soltou-lhe a guita, e uma lágrima tímida enquanto dizia
“Meu menino, meu menino”.
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