Palavrar

O acto de reescrever palavras antigas é quase obsceno.
Ler do nosso ontem assemelha-se, na minha opinião, a olhar os nossos genitais em frente a um espelho. E a preparação emocional que requer a consciencialização de que o ontem já não se adequa ao hoje ...

de facto, as palavras do hoje são mais cheias e crescidas, mais intelectuais

 é a antecipação de mergulhar numa fossa de esgoto, de onde poderemos não só sair porcalhões, como não conseguir tirar da pele o cheiro do ontem. Altamente repugnante, portanto.
Daí surge a ânsia de criar de novo, de renascer nas palavras límpidas e frescas, que nos abrem a porta para um mundo de "poesibilidades".

Mas toda a água estagnada, com o tempo, se torna suja e lamacenta. No amanhã parecer-nos-à de novo verde. De novo mal-cheirosa.

Não lá quero pôr as minhas mãos! Estas mãos não conhecem já esse ontem, pestilento.
Essa água não é minha! Foi o eu de ontem - jovem e ignorante - que aí a depositou. Hoje tenho mais cem anos e mil rugas, palavras de um quilo, e não de míseras gramas

Palavrar é um verbo que não gosta do seu pretérito perfeito.


Comentários

  1. Eu gosto das tuas palavras de hoje e das de ontem. E das minhas também, não me fazem comichão nem me deixam esquecer como aprendi as novas =)

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