Partida do coração
O instinto de esticar o braço e alcançar o telemóvel, para te ligar, veio forte e descabido...
Então, 7 anos volvidos! Pareci desaprendê-los.
Quando, desajeitada, me inibi e travei a mão distraída, confusa e turva de pensamento, senti o vazio que em mim mora. Parasita. Camuflado... Assim como tantos outros buraquinhos de traça que pontuam a malha do Eu.
Caramba! Uma partida do coração. Falou-me antes que o cérebro tivesse oportunidade de intervir.
E ia mesmo marcar o número acabado em 0815, que está marcado a ferro e fogo, como se fosse parte da tua silhueta, cuja memória me esforço por fotografar e aprisionar. O meu olfacto mimetiza ainda o teu cheiro, do teu pequeno roll-on esquecido no teu quarto.. Da tua saliva quando me beijavas a face. Beijos que eu repelia, desajeitada, incomodada pela tua barba negra, semeada de branco, severa e familiar, que acolhia a tua boca e o seu sorriso despenteado, o teu nariz adunco e olhos felizes. Que saudades, que saudades...!
Queria ligar-te e dizer-te do meu dia, que tola, de tal forma é real o sonho de que me acompanhas.
Quem me dera... quem me dera dizer-te de mim e de nós. Do que aprendi no teu colo, numa tarde de verão, enquanto comia côdeas de pão, e lambuzava os dedos de manteiga. Do quanto aprendia nos abraços brincalhões e severos raspanetes. Na ausência do teu sorriso.
E, hoje,sou mulher que não chegaste a conhecer, mas previste. E em mim trago-te mais do que um pouco, enleado nos meus gestos e jeitos, inatos e adquiridos. Amo-te e nunca to disse, Pai.
Faz agora mais um ano que nos deixaste de coração vazio e olhos molhados.Amo-te pai
ResponderEliminar