Eutanásia

...Quanto à morte, não há meio de chegar.
Ela vem caminhando em passos lentos e arrítmicos,
fazendo ouvir a sua respiração,
irregular, umas vezes mais próxima que outras.
Mas não chega, pelo menos não por agora.

Vou esperando ansioso o momento do nosso abraço
o momento em que nos fundiremos num só e o meu corpo se desintegrará em cinzas
cinzas, tudo o que eu queria ser,
para por agora deixar de ser, de sentir.
Ofereço o meu corpo, a minha alma, o meu ego
Só peço em troca que a morte os aceite,
que os tome, que os colha com a sua foice, sem esforço
- semi flutuantes entre a vida e a desvida, num limbo que cansa
que magoa e me deixa dorida a vontade de viver.

Sobrevivo, dia após dia,
sem querer,
numa apoptose gradual do que fui

Percorro um corredor ladeado de portas
ecoa o som de uma
- a fechar atrás da outra
até que, num tempo finito e mensurável a última se fechará
Tempo mensurável... em unidades
pois cada segundo é um negativo queimado no filme da minha vida
perdido para sempre
cujo cheiro químico e asfixiante permanece numa nuvem, que vou respirando
sugando,
até que
-já sem esperança,
abra a minha boca moribunda ao ar, sem que este entre em mim,
e abandone o corpo que já não reconheço ao partir leve.
O alívio, enfim.

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