Velho

Era uma vez um velho.
Um velho tão velho que tinha quase tantos anos quantas as rugas vincadas na sua face.
Velho como as suas mãos, os seus olhos, a sua audição.
Velho com a sua solidão, de quem viu passar os anos, sem os poder impedir, e acenou despedidas a familiares e amigos.
Velho gasto, com o cheiro proprio dos velhos. Mole, Lento, Velho.
Queria partir também ele, da inutilidade em que a sua vida se havia transformado.
Partiria, era certo, mas até a morte o abandonara, parecia. Ter-se-ia esquecido daquele velho, que por ser tão velho nem forças tinha para morrer?
Talvez.
Mantinha a esperança de morrer um dia durante um sono, vitima da sua propria saliva asfixiado,
Ou das suas entranhas em necrose, pestilentas, fartas de funcionar,
Ou do coração fraco de força e de vida.
A esperança do seu corpo ceder primeiro que a sua sanidade mental,
Primeiro que as limitações e acrescida dependência o arrancassem dos poucos prazeres que ainda conseguia retirar da vida.

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