O Índio

Enquanto avançava, criando com um cepo um trilho, entre silvas e ramos que se estendiam à sua frente, parecendo querer envolvê-lo na densidade da floresta, o pequeno índio ia cantarolando uma melodia selvagem que aprendera com a sua tribo. A sua voz perdia-se, mas nunca cessavam as melodias. As aves tropicais gritavam aos céus os seus trinados e entoavam cânticos de acasalamento que se fundiam com os roncos das onças, na natureza da Amazónia.O pequeno não suava, estava habituado ao calor e à humidade intensos da floresta e já nem cansava os seus braços, tamanha era a sua habilidade! A dor já não o atingia, só à noite sentia fadiga no corpo, quando se deixava dormir em torno de uma fogueira, enquanto a tribo olhava o céu estrelado e um homem mais velho contava histórias sobre deuses, que os vigiavam.O índio parou de caminhar a certa altura, quando lhe pareceu ter ouvido uma onça a aproximar-se. Agachou-se no trilho recém criado e assobiou, tentando imitar uma ave, para que a onça não suspeitasse que se tratava de um homem. Mas, o felino sentia o cheiro do seu corpo, sentia o medo e não desistiu. Quando a onça surgiu diante dos seus olhos, estes brilharam de receio mas também de êxtase. Apesar de saber que corria perigo de vida, o indio deixou-se ficar e, sorrindo, agradeceu aos deuses, quase a rir, num dialecto atropelado."Eu queria ser livre da morte, livre da dor e do sofrimento, livre do medo e da alegria, obrigada deuses, poder viver nesta riqueza, ter alimento e a minha familia... mas poder estar frente a frente com o demónio e conseguir sorrir!!Ah, nao me podiam ter dado maior felicidade que sentir-me preso e encurralado no meio de tanta liberdade! Se conseguir voltar vivo à minha aldeia, nunca a liberdade me terá sabido tão bem!"Os deuses ouviram-no. Choveu.Ao fim da tarde, o índio voltou são e abraçou cada amigo, cada irmão, cada pai e sorriu de uma maneira que poucos sabiam sorrir!

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