Monstros Debaixo da Minha Cama

Qual criança atormentada pela chegada da noite, do escuro, envolvo-me no teu cheiro que me protege os pensamentos e me limita a imaginação.
Debaixo da minha cama os meus monstros rugem, gemem, assustadores. Mas quando estou aninhada em ti, eles nada podem contra mim, e rio-me na cara deles mas ai de mim, Ah, quando me falha o teu cheiro, eles saem do seu refúgio e atormentam-me pela noite dentro!
Puxam-me os cabelos, arrepiam-me os pêlos, agarram-me os pés e mordem-me as orelhas, e levam-me o sono! Mas isso, eu aguento! O pior é quando eles, monstros terríveis, abrem as portas à minha imaginação, deixam voar livres os meus pensamentos, apertam-me o coração para fazer sumo de malícias! E eu deixo de estar deitada na minha cama - ando por aí, perdida numa inquietação desconsolante, à procura de intrigas, à espera de mágoa e desilusão, tão aberta a acreditar que o mar está revolto e escuro e tão disposta a agonizar na minha especulação.
Os monstros levam-me com eles para sítios onde os meus pés não tocam o chão, e eu insegura, com medo de me afogar, de que venha uma onda mais forte e me enrole e me sufoque, jogo as mãos a ti, e arranho-te para não me soltar, cravo as minhas unhas no teu peito, mesmo sem que estejas ao meu alcance, e puxo-te para perto de mim!
Tu repeles-me com a dor que te causo e empurras-me de novo para a cama e aconchegas-me com os lençóis. Mas partes de novo, e o morno e confortável da cama se volta a tornar num frio horrível, e os monstros rastejam outra e outra vez, arrastando-me com eles para onde não quero ir quando estou contigo, mas para onde deixo que me levem, sempre que tu partes.

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