Conto - Segredos do Mar
Lembro-me de, naquele fim de tarde de verão, escutar uns murmúrios, enquanto caminhava à beira mar. À minha volta não se via ninguém. Nada, excepto uma imensidão de mar e de areia.
Espreitei, então, sobre uma rocha e vi uma pequena concha, branca e pura.
Fitei-a, assustada, quando soltou um gemido e reconheci os murmúrios. Abafei um grito que não consegui evitar. A concha fitava-me assustada, talvez mais do que eu, que nunca estivera envolvida em semelhante situação. As minhas mãos tremiam quando surgiram, trazidos por uma onda, um búzio negro, um tanto atarantado, e uma estrela-do-mar, que se movia graciosamente.
Não sei o que me deu. Peguei na pequena concha e, com força, apertei-a contra os meus dedos.
Mirei-a. Gemia, petrificada. Tomei noção do que fazia e tornei a pousá-la na areia. Os meus sonhos de criança, com sereias e golfinhos, nessa altura ofuscavam-me e eu, no fundo, acreditava neles. Mas, conchas que falam? Parecia um sonho.
Desnorteada, sentei-me na areia. Reparei melhor na pequena concha. Parecia triste mas, a sua presença, transmitia-me uma pureza que me deixava calma. Inspirei fundo. A pequena concha leu os meus pensamentos e dentro da minha cabeça comecei a ouvir vozes. Uma mais grave que atribuí ao búzio negro; uma aguda, mas doce, que atribuí à graciosa estrela-do-mar e uma suave e harmoniosa, que já conhecia: a minha pequena concha branca. “ Telepatia! ” …afinal, as vozes que ouvira, estavam na minha cabeça. A estrela apresentou-se. Anya, a estrela-do-mar, vinda da cidade submersa de Marino. Seguidamente o búzio. Pedro, pequeno e brilhante, após se ter apresentado, aproximou-se de mim e coloquei-o devagar na minha mão. Elevei-o à altura do meu nariz e sorri-lhe. A concha, então, voltou a falar comigo. Chamava-se Vieira. Que paz que me trazia a sua voz! Disse-me que andavam perdidos. Tinham sido arrancados das suas casas por um barco de arrasto que os abandonou ali, naquela parte da costa que lhes era estranha.
Apesar de não me terem pedido para os ajudar, achei que não fazia mais que o meu dever. A concha contou-me do seu lar, de criaturas fantásticas que aí viviam e de vidas invejáveis que ai levavam. A concha vivia com os pais e irmãos. Uma família numerosa. O búzio, que não era de Marino, vivia com a estrela-do-mar numa pequena gruta. Naquele dia, os amigos ter-se-iam encontrado. Viam-se, agora, desorientados, perdidos e sós, naquele mundo que não lhes pertencia. Abandonei-os, naquela praia, junto a uma poça de água salgada, com a promessa de regressar, no dia seguinte, com ajuda. A concha chorava, gemia e tremia, assustada. Depois de ver aquele sofrimento todo, que a abalava, senti-me incapaz de a deixar. Mas eu, menina inconsciente, acreditava que os sonhos se tornavam realidade. Voltaria, conforme o prometido, no dia seguinte, com reforços, e viajaria com eles até os conseguir devolver às suas origens. Ingénua. Regressaram. Sem mim. Hoje, acho só que a mente nos prega partidas. Nem concha, nem búzio, nem estrela-do-mar. Vieira, Pedro e Anya. Quando regressei à poça onde os tinha deixado, apenas encontrei algumas marcas na areia. Marcas que evidenciavam a sua volta ao mar. Mas, logo, uma onda as apagou. Desta vez, não vinham nela embalados Anya, nem Pedro, nem a minha pequena concha branca. Talvez, um dia, - quem sabe? - uma outra onda os traga para perto de mim, novamente.
Espreitei, então, sobre uma rocha e vi uma pequena concha, branca e pura.
Fitei-a, assustada, quando soltou um gemido e reconheci os murmúrios. Abafei um grito que não consegui evitar. A concha fitava-me assustada, talvez mais do que eu, que nunca estivera envolvida em semelhante situação. As minhas mãos tremiam quando surgiram, trazidos por uma onda, um búzio negro, um tanto atarantado, e uma estrela-do-mar, que se movia graciosamente.
Não sei o que me deu. Peguei na pequena concha e, com força, apertei-a contra os meus dedos.
Mirei-a. Gemia, petrificada. Tomei noção do que fazia e tornei a pousá-la na areia. Os meus sonhos de criança, com sereias e golfinhos, nessa altura ofuscavam-me e eu, no fundo, acreditava neles. Mas, conchas que falam? Parecia um sonho.
Desnorteada, sentei-me na areia. Reparei melhor na pequena concha. Parecia triste mas, a sua presença, transmitia-me uma pureza que me deixava calma. Inspirei fundo. A pequena concha leu os meus pensamentos e dentro da minha cabeça comecei a ouvir vozes. Uma mais grave que atribuí ao búzio negro; uma aguda, mas doce, que atribuí à graciosa estrela-do-mar e uma suave e harmoniosa, que já conhecia: a minha pequena concha branca. “ Telepatia! ” …afinal, as vozes que ouvira, estavam na minha cabeça. A estrela apresentou-se. Anya, a estrela-do-mar, vinda da cidade submersa de Marino. Seguidamente o búzio. Pedro, pequeno e brilhante, após se ter apresentado, aproximou-se de mim e coloquei-o devagar na minha mão. Elevei-o à altura do meu nariz e sorri-lhe. A concha, então, voltou a falar comigo. Chamava-se Vieira. Que paz que me trazia a sua voz! Disse-me que andavam perdidos. Tinham sido arrancados das suas casas por um barco de arrasto que os abandonou ali, naquela parte da costa que lhes era estranha.
Apesar de não me terem pedido para os ajudar, achei que não fazia mais que o meu dever. A concha contou-me do seu lar, de criaturas fantásticas que aí viviam e de vidas invejáveis que ai levavam. A concha vivia com os pais e irmãos. Uma família numerosa. O búzio, que não era de Marino, vivia com a estrela-do-mar numa pequena gruta. Naquele dia, os amigos ter-se-iam encontrado. Viam-se, agora, desorientados, perdidos e sós, naquele mundo que não lhes pertencia. Abandonei-os, naquela praia, junto a uma poça de água salgada, com a promessa de regressar, no dia seguinte, com ajuda. A concha chorava, gemia e tremia, assustada. Depois de ver aquele sofrimento todo, que a abalava, senti-me incapaz de a deixar. Mas eu, menina inconsciente, acreditava que os sonhos se tornavam realidade. Voltaria, conforme o prometido, no dia seguinte, com reforços, e viajaria com eles até os conseguir devolver às suas origens. Ingénua. Regressaram. Sem mim. Hoje, acho só que a mente nos prega partidas. Nem concha, nem búzio, nem estrela-do-mar. Vieira, Pedro e Anya. Quando regressei à poça onde os tinha deixado, apenas encontrei algumas marcas na areia. Marcas que evidenciavam a sua volta ao mar. Mas, logo, uma onda as apagou. Desta vez, não vinham nela embalados Anya, nem Pedro, nem a minha pequena concha branca. Talvez, um dia, - quem sabe? - uma outra onda os traga para perto de mim, novamente.
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