Acto Primeiro

Invadida pela solidão na sua essência, esconde os olhos húmidos do oxigénio que a consome. Cobre a face gélida com as mãos que outrora pintaram e escreveram algo que não poderia ser escrito ou colorido, as mãos que conheciam o papel e a caneta. As mãos que eram a sua janela da alma. Os olhos... Esses são traiçoeiros. Quem os autoriza a expressar o estado da alma quando nem sempre é essa a sua vontade?
Mergulha então no mar de nada que a preenche, um mar que oculta as falhas daquela existência que tenta a todo o custo afirmar. Mas que existência é a dela? Como a considera existência se nem consegue gritar? Solta para o tecto gemidos abafados pelo sufoco que a faz viver. Paradoxal? Não. Ela entende que este estado de abstracção, que este estado de tudo e nada, que este estado que é apenas…um reflexo da sua pobre existência, dá sentido ao teatro da vida. O corpo dela é a peça, e enquanto arrasta os pés para outro acto, os actores representam. As mãos tremem-lhe e os dedos permanecem imóveis. Os joelhos fraquejam, os pés deixam de rastejar. As pálpebras cerram-se e adormece. Fecha-se o pano. Fim do primeiro acto.

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